Curtas

Nesta eleição, 1.168 jornalistas tiveram seus votos validados.
A Chapa 2 recebeu 515 votos, 44% dos votos válidos. A Chapa 1, da situação, recebeu 653 votos, 56%.
 

Candidatos

Pedro Malavolta, secretário de sindicalização
 Formado em jornalismo pela USP em 2006. Durante o curso foi diretor do DCE e da Enecos. Foi estagiário nas redações do Diário do Comércio, Indústria & Serviços (DCI) e na Agência Brasil. Trabalhou na campanha de Plínio de Arruda Sampaio ao governo do estado e no Portal iG. Atualmente está no setor de comunicação do Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo.
 
Primeira Página
Sindicato de luta ou amiguinho dos patrões?
Por Administrator   
15 de Maio de 2009

Os jornalistas sindicalizados receberam, há alguns dias, um folheto com material publicitário de um evento denominado “12º Congresso Brasileiro de Comunicação Corporativa”. Organizado por uma firma privada de serviços em comunicação, o tal congresso conta com o “apoio institucional” do Sindicato dos Jornalistas e da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), organizações sindicais da nossa categoria, cujos logotipos são exibidos no folheto ao lado das empresas e instituições patrocinadoras ou “apoiadoras” – uma longa lista que inclui companhias multinacionais (Fiat, Telefônica, Cargill, Monsanto, Philips, AES, Nestlé etc.), uma grande corporação da mídia (Editora Abril), o governo tucano de São Paulo e algumas das maiores agências de assessoria de imprensa no país. Jornalistas filiados ao sindicato têm desconto de 5% na inscrição, cujo preço varia de 980 a 1.250 reais, dependendo da data.

Como em suas versões anteriores (igualmente apoiadas pela diretoria do nosso Sindicato e pela Fenaj), o congresso presta reverência a um dos expoentes do seleto grupo de capitalistas que monopolizam os meios de comunicação no país. Em 2006, o homenageado foi Octavio Frias de Oliveira, dono da Folha de S.Paulo, inimigo declarado da organização sindical da categoria, e no ano seguinte, “Johnny” (quanto carinho...) Saad, da Rede Bandeirantes. Roberto Civita e Ruy Mesquita também já receberam agrados. Agora, o contemplado com o prêmio “Personalidade da Comunicação 2009” será o empresário Nelson Sirotsky, dono do grupo RBS, que, como sócio da Rede Globo no sul do país, comanda um imenso conglomerado de emissoras de rádio e TV, portais na internet e o jornal Zero Hora.

O boletim publicitário do congresso, realizado com o “apoio” da nossa entidade, saúda Sirotsky como “uma das principais lideranças do segmento jornais, tendo sido presidente da ANJ – Associação Nacional de Jornais entre os anos de 2006 e 2008”. O grupo RBS está sendo processado pelo Ministério Público Federal por ter estabelecido um monopólio da mídia no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.

Para uma entidade classista, como o nosso sindicato (e também a Fenaj), é mais do que inadequado aderir a uma confraternização com os patrões e com organizações especializadas em defender os interesses empresariais ¯ é vergonhoso. A presença das entidades sindicais dos jornalistas num evento desse tipo, em promíscua parceria com o capital e seus porta-vozes, expressa uma conduta que põe em xeque a coerência e a sinceridade da atuação dos representantes da nossa categoria.

Os sindicatos de jornalistas existem para defender os nossos legítimos interesses, como profissionais que vivemos do nosso trabalho, no conflito ¯ inerente às relações entre empresários e trabalhadores ¯ com o patronato. A função do sindicato é denunciar os abusos das empresas e não bajular os seus proprietários.

Só a presença e o envolvimento do nosso sindicato num evento dessa natureza já é suficiente para motivar o repúdio de qualquer jornalista consciente. Mas o constrangimento se torna ainda maior quando se toma conhecimento do teor das atividades agendadas. O folheto (redigido em linguagem brega, repleto de expressões como crème de la crème) não deixa dúvidas sobre o que é o evento na realidade: uma verdadeira passarela para o desfile de algumas das empresas de atuação mais nefasta na cena pública brasileira.

Sindicato e Fenaj devem retirar apoio ao evento
As estrelas do congresso da “comunicação corporativa” são companhias notoriamente envolvidas na depredação do meio-ambiente, na exploração predatória dos nossos recursos naturais, em violações dos direitos humanos, remessas abusivas de lucros para o exterior e nos escândalos das privatizações (a famosa “privataria” dos serviços públicos, como telefonia e eletricidade).

Uma das palestras tem como “tema” a multinacional estadunidense Monsanto, a maior produtora de sementes transgênicas, famosa no mundo inteiro pelos escândalos relacionados com a contaminação dos alimentos pelos agrotóxicos por ela fabricados. O título da palestra deixa claro, sem o menor sinal de pudor, qual é o enfoque do tal congresso corporativo: “O desafio de reverter a imagem da empresa (Monsanto) e de comunicar sobre os transgênicos”.
Em outra palestra, o diretor de comunicação da Vale  relata as proezas da gigante privatizada em um “projeto de divulgação ambiental que mobilizou a sociedade”. A Alcoa, companhia envolvida na devastação da Amazônia e na violação dos direitos sociais de moradores da região, tem espaço duplo, com uma palestra de um dos seus diretores (título: “Sustentabilidade é a nossa natureza”...) e uma vice-conferência de um vídeo-presidente, ou o contrário disso, direto dos States.

Por aí vai, com uma verdadeira overdose de “marketing social” (“O ‘case’ do Instituto Ronald McDonald”), instruções para a prática do merchanding e do mídia-training e estímulo ao carreirismo (“Como construir uma trajetória de sucesso no competitivo mercado da Comunicação, sem ter super-poderes”), tudo isso culminando, como não poderia deixar de ser, com um discreto reforço à candidatura tucana de José Serra: uma conferência do articulista e marqueteiro Gaudêncio Torquato, intitulada “A Comunicação, as Empresas e o Brasil de 2010. De Dilma, Serra ou Aécio?”.

A nova diretoria do Sindicato dos Jornalistas, se tiver um pingo de vergonha na cara, deve retirar imediatamente o apoio da entidade a esse evento, que não apenas não tem nada a ver com a função, os valores e o compromisso do sindicato, mas representam exatamente o oposto disso tudo. O mesmo se aplica à Fenaj. E tem mais: a lista com os nossos endereços deve ser usada apenas para informações sindicais, nunca para publicidade corporativa. E que nossas entidades (Sindicato e Fenaj) ponham fim, de uma vez por todas, às suas promíscuas parceiras com as empresas. Sindicalismo é assim: trabalhador de um lado, patrão do outro.

 
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