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Os jornalistas sindicalizados receberam, há alguns dias, um folheto com material publicitário de um evento denominado “12º Congresso Brasileiro de Comunicação Corporativa”. Organizado por uma firma privada de serviços em comunicação, o tal congresso conta com o “apoio institucional” do Sindicato dos Jornalistas e da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), organizações sindicais da nossa categoria, cujos logotipos são exibidos no folheto ao lado das empresas e instituições patrocinadoras ou “apoiadoras” – uma longa lista que inclui companhias multinacionais (Fiat, Telefônica, Cargill, Monsanto, Philips, AES, Nestlé etc.), uma grande corporação da mídia (Editora Abril), o governo tucano de São Paulo e algumas das maiores agências de assessoria de imprensa no país. Jornalistas filiados ao sindicato têm desconto de 5% na inscrição, cujo preço varia de 980 a 1.250 reais, dependendo da data. Como em suas versões anteriores (igualmente apoiadas pela diretoria do nosso Sindicato e pela Fenaj), o congresso presta reverência a um dos expoentes do seleto grupo de capitalistas que monopolizam os meios de comunicação no país. Em 2006, o homenageado foi Octavio Frias de Oliveira, dono da Folha de S.Paulo, inimigo declarado da organização sindical da categoria, e no ano seguinte, “Johnny” (quanto carinho...) Saad, da Rede Bandeirantes. Roberto Civita e Ruy Mesquita também já receberam agrados. Agora, o contemplado com o prêmio “Personalidade da Comunicação 2009” será o empresário Nelson Sirotsky, dono do grupo RBS, que, como sócio da Rede Globo no sul do país, comanda um imenso conglomerado de emissoras de rádio e TV, portais na internet e o jornal Zero Hora. O boletim publicitário do congresso, realizado com o “apoio” da nossa entidade, saúda Sirotsky como “uma das principais lideranças do segmento jornais, tendo sido presidente da ANJ – Associação Nacional de Jornais entre os anos de 2006 e 2008”. O grupo RBS está sendo processado pelo Ministério Público Federal por ter estabelecido um monopólio da mídia no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Para uma entidade classista, como o nosso sindicato (e também a Fenaj), é mais do que inadequado aderir a uma confraternização com os patrões e com organizações especializadas em defender os interesses empresariais ¯ é vergonhoso. A presença das entidades sindicais dos jornalistas num evento desse tipo, em promíscua parceria com o capital e seus porta-vozes, expressa uma conduta que põe em xeque a coerência e a sinceridade da atuação dos representantes da nossa categoria. Os sindicatos de jornalistas existem para defender os nossos legítimos interesses, como profissionais que vivemos do nosso trabalho, no conflito ¯ inerente às relações entre empresários e trabalhadores ¯ com o patronato. A função do sindicato é denunciar os abusos das empresas e não bajular os seus proprietários. Só a presença e o envolvimento do nosso sindicato num evento dessa natureza já é suficiente para motivar o repúdio de qualquer jornalista consciente. Mas o constrangimento se torna ainda maior quando se toma conhecimento do teor das atividades agendadas. O folheto (redigido em linguagem brega, repleto de expressões como crème de la crème) não deixa dúvidas sobre o que é o evento na realidade: uma verdadeira passarela para o desfile de algumas das empresas de atuação mais nefasta na cena pública brasileira. Sindicato e Fenaj devem retirar apoio ao evento As estrelas do congresso da “comunicação corporativa” são companhias notoriamente envolvidas na depredação do meio-ambiente, na exploração predatória dos nossos recursos naturais, em violações dos direitos humanos, remessas abusivas de lucros para o exterior e nos escândalos das privatizações (a famosa “privataria” dos serviços públicos, como telefonia e eletricidade). Uma das palestras tem como “tema” a multinacional estadunidense Monsanto, a maior produtora de sementes transgênicas, famosa no mundo inteiro pelos escândalos relacionados com a contaminação dos alimentos pelos agrotóxicos por ela fabricados. O título da palestra deixa claro, sem o menor sinal de pudor, qual é o enfoque do tal congresso corporativo: “O desafio de reverter a imagem da empresa (Monsanto) e de comunicar sobre os transgênicos”. Em outra palestra, o diretor de comunicação da Vale relata as proezas da gigante privatizada em um “projeto de divulgação ambiental que mobilizou a sociedade”. A Alcoa, companhia envolvida na devastação da Amazônia e na violação dos direitos sociais de moradores da região, tem espaço duplo, com uma palestra de um dos seus diretores (título: “Sustentabilidade é a nossa natureza”...) e uma vice-conferência de um vídeo-presidente, ou o contrário disso, direto dos States. Por aí vai, com uma verdadeira overdose de “marketing social” (“O ‘case’ do Instituto Ronald McDonald”), instruções para a prática do merchanding e do mídia-training e estímulo ao carreirismo (“Como construir uma trajetória de sucesso no competitivo mercado da Comunicação, sem ter super-poderes”), tudo isso culminando, como não poderia deixar de ser, com um discreto reforço à candidatura tucana de José Serra: uma conferência do articulista e marqueteiro Gaudêncio Torquato, intitulada “A Comunicação, as Empresas e o Brasil de 2010. De Dilma, Serra ou Aécio?”. A nova diretoria do Sindicato dos Jornalistas, se tiver um pingo de vergonha na cara, deve retirar imediatamente o apoio da entidade a esse evento, que não apenas não tem nada a ver com a função, os valores e o compromisso do sindicato, mas representam exatamente o oposto disso tudo. O mesmo se aplica à Fenaj. E tem mais: a lista com os nossos endereços deve ser usada apenas para informações sindicais, nunca para publicidade corporativa. E que nossas entidades (Sindicato e Fenaj) ponham fim, de uma vez por todas, às suas promíscuas parceiras com as empresas. Sindicalismo é assim: trabalhador de um lado, patrão do outro.
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